quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Teologia Feminista: heresia não, busca de igualdade.




Este é um trecho da minha monografia, não editei, está exatamente como no corpo da mono. Mas depois vou me aprofundar mais no assunto de forma mais leve, menos acadêmica. E vou acrescentar outras informações sobre a teologia feminista. Mas por enquanto, espero que gostem.




Com o passar dos anos e o domínio do mundo pelas ciências e não mais pela religião, principalmente após o iluminismo e as escolas de pensamento levantadas por ele, nasceu a necessidade de não se falar mais em “a” teologia mas sim, “as” teologias.


A teologia cristã, enquanto discurso nas igrejas, foi obrigada a dialogar com outras áreas de conhecimento e este diálogo gerou deslocamentos importantes. (...) Neste diálogo misturam-se teorias e conceitos vindos de várias escolas e correntes teóricas com reivindicações do movimento social que se articula ao redor das identidades sexuais e de gênero. (MUSSKOPF, 2008.)

 Um dos maiores meios de segregação, não só do masculino contra o feminino, mas do branco sobre o negro, de religião sobre religião e até mesmo de ricos sobre pobres, foi e é a Bíblia. É ingênuo ou hipócrita quem diante da história da humanidade e especificamente do cristianismo, diga o contrário. Deste princípio opressivo nasce em homens e mulheres o desejo de observar a Bíblia sob uma ótica igualitária, ao invés de hierárquica, assim começam movimentos de busca de uma teologia feminista.

Na Igreja Católica, foi fundada na Grã-Betanha em 1911 a “Aliança Internacional Joana D’Arc”. Foi um dos primeiros movimentos no meio católico e propunha-se a “assegurar a igualdade dos homens e das mulheres em todos os campos”.

No meio protestante: Verificou-se outro momento importante no período de 1956 a 1965, quando as principais correntes do protestantismo decidiram admitir as mulheres no pastorado, fato que representou uma grande novidade eclesiológica nestas comunidades, com exceção das igrejas livres do Estados Unidos que praticavam a ordenação de mulheres desde 1853. (FILHO, Augusto Bello de Souza. 2012)

A teologia feminista assim como o feminismo não visa uma busca de superioridade teológica feminina, e sim uma reflexão teológica feita a partir da perspectiva feminina, de forma que a mulher não seja desprezada, ou inferiorizada, mas sim vista como igual.

A teologia feminista é uma ferramenta indispensável para exercitar uma nova hermenêutica da Bíblia, especialmente dos textos já calcificados por interpretações teologicamente conservadoras e opressoras. Muitas mulheres, independentemente de classe social, idade e etnia, já estão envolvidas neste exercício da reflexão teológica e, assim, tomam para si o direito – e o dever - de refletir a partir de sua própria condição, situação e consciência como mulher, sobre a experiência peculiar da revelação de Deus na sua vida. (OLIVEIRA, Elizabete C. P. de. 2012)

A partir da segunda metade do século XX, as mulheres se deram conta de que o deus adorado em suas igrejas e pelos homens que as subjugavam era aliado desse tipo de pensamento, era usado como obstáculo para a emancipação e o discurso de igualdade feminina. A partir daí a tarefa das teólogas feministas era buscar o Deus na Bíblia que os homens ocultaram para poder manter as mulheres sob controle. Assim nasce uma busca de textos que eram usados para alienação e denúncia de mau uso de textos usados para a manutenção do poder de uns e da ignorância de outros.

A Teologia Feminista insere-se num mais amplo e histórico movimento de articulação e organização de lutas por libertação de mulheres. Luta-se contra sistemas patriarcais de opressão, que se situam em âmbito político, cultural, eclesiástico, econômico, sindical... e que se expressam e são vivenciados no cotidiano de nossas vidas. (REIMER, 2005. p. 17)

 É importante destacar que a teologia feminista se autocompreende como uma contribuição crítica para uma teologia integral.

A teologia feminista surge buscando recriar as relações interpessoais sob uma base onde o feminino não seja visto como insignificante. Vem travando uma luta no sentido de denunciar os conceitos de “masculino” e “feminino” na sua oposição de “superior” e “inferior”. O movimento entende que esta construção hierarquizada que coloca o masculino como superior e o feminino como inferior é uma construção ideológica e não o reflexo da diferenciação biológica. Afirmam as teólogas do movimento que tal diferenciação não implica, de forma alguma, em desigualdade. (LAYDCKSON, 2011)


(Quem quiser as fontes completas, é só me pedir nos comentários.)

4 comentários:

  1. " Um dos maiores meios de segregação, não só do masculino contra o feminino, mas do branco sobre o negro, de religião sobre religião e até mesmo de ricos sobre pobres, foi e é a Bíblia. É ingênuo ou hipócrita quem diante da história da humanidade e especificamente do cristianismo, diga o contrário."

    Stephanie,tenho muitas dúvidas e muitas ressalvas a respeito da tal teologia feminista, mas o que mais me intrigou neste teu post foi a frase acima. Sou cristã, tenho conhecimento da Bíblia, tenho senso crítico, mas não posso concordar com o que você diz, pelo menos não da maneira como disse. O Antigo Testamento realmente tem coisas que não compreendemos e muitas vezes não concordamos, tipo toda a matança que rola por lá, mas foram ordenadas por Deus com algum propósito específico que Ele tinha para o povo de Israel e afins.

    Mas quando você afirma com tanta veemência que a Bíblia gera preconceitos e conflitos, eu realmente me pergunto se você ponderou que o que quer que você tenha em mente para afirmar tal coisa, isto foi instituído por Deus com algum propósito.

    E honestamente, qual é a igualdade que você busca com a teologia feminista, mantendo-se dentro dos ensinamentos bíblicos? Porque respeito pela mulher, qualquer pessoa com bom senso tem. E Jesus mesmo deu exemplos de que a mulher deve ser respeitada e tudo o mais, então esta parte eu entendo. Mas o que mais?

    Espero não ter sido agressiva em meu comentário, porque realmente não é minha intenção. Apenas queria conversar contigo sobre estas dúvidas que me surgiram lendo seu texto.

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  2. A Bíblia nunca gerou preconceitos e conflitos?
    Vamos começar do começo então... Inquisição-queimar/matar hereges, pessoas que contradisseram a interpretação vigente da bíblia, entre eles cientistas, curandeiras e qualquer um que discordasse da igreja-, cruzadas- matar pagãos... A Bíblia foi usada para apoiar a escravidão em vários países. Brigas entre católicos e protestantes na europa que morreram muitas pessoas. Conflito na faixa de gaza, judeus com a Torá[nosso AT] acreditando que tem o direito de matar o próximo pela sua terra e vice-versa(detalhe, milhares de cristãos que acham que apenas os islâmicos estão errados). Seitas baseadas na Bíblia, ou nos textos malucos que eles escolheram dela, que fazem suícidos coletivos, estupros corretivos em homossexuais e alienam e roubam milhares de pessoas usando a Bíblia. TUDO ISSO É USANDO A BÍBLIA.
    Obs. Gera preconceito contra a moça que engravidou antes de casar, o divorciado, o gay, o pobre(aquelas igrejas que pregam prosperidade), o doente(igrejas que pregam que crente de verdade não adoece)...

    A Bíblia em si é contraditória sim, mas não é má. Só que nas mãos erradas ou com os interesses errados vira instrumento de destruição.

    Todas essas coisas são fatos, ou experimentados por mim e amigos nas igrejas que passamos ou em FATOS históricos.


    Que igualde é preciso buscar?

    Tamyres... Essa pergunta me deixa feliz e triste. Feliz pq se vc acha que não há necessidade de buscar igualdade, Deus abençoe sua igreja! Pq deve ser realmente justa com a mulher, mas essa não é a realidade de todas as igrejas.
    Me deixa triste pq vc foi otimista demais. Como eu disse no texto, esse é um trecho da minha monografia, cujo tema girou em torno principalmente da mulher e da ordenação feminina na Igreja Batista Brasileira. Além da experiência que tenho na convenção que faço parte, ouvi pastores, conheci pastoras, pesquisei muito. Apesar de nos ultimos 10 anos a mulher ter avançado muito na denominação, ainda existe um machismo velado e um machismo horrivelmente escancarado.

    Muita gente, muitos pastores, muitas mulheres ainda acham que a mulher é inferior ao homem e que tem que se submeter a ele pelo único fato de ser mulher. Muitos pastores usam textos do antigo testamento e textos de Paulo(mal interpretados, mal traduzidos e mal intencionados) como desculpa para inferiorizar a mulher e jogá-la pro canto.
    Não tenho dúvida que as palavras e ações de Jesus valorizam e igualam a mulher na sociedade, aliás não só a mulher como todas as minorias, mulher, criança, pobre, doente, excluídos da sociedade. Mas infelizmente pra muita gente Jesus não é o suficiente, inclusive muita gente nem enxerga(conscientemente ou não) esse Jesus que você, pelo que notei, enxerga.
    É por isso que a Teologia Feminista precisa existir, assim como é por causa do completo abandono dos pobres e das ações práticas pra mudar a sociedade e 'inaugurar o reino' que a Teologia da Missão precisa existir, assim como várias teologias surgiram e surgirão, pq as pessoas esquecem ou ignoram alguns princípios e precisamos refletir teologicamente para resgatá-los.


    Você não foi agressiva. Eu adorei poder respondê-la. Qualquer coisa, to aí ;)

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  3. Bem, sobre a questão da Bíblia, Stephanie, eu acho que não me expliquei bem talvez. Eu entendo que a Bíblia gera muitas possibilidades de interpretações, mas isto parte do ser humano. Em nenhum momento, eu creio, Deus ordenou o que ordenou, ou permitiu que a Bíblia fosse escrita como foi, sendo, eu acredito, a palavra Dele, para ser usada como justificativa para perseguição ou desrespeito. Tudo isso acontece pelo mau uso da Bíblia, que é deturpada e usada em trechos fora de contexto para sim fazer o mal. Mas a Bíblia, a palavra de Deus não tem culpa disso. O ser humano é que o faz, e por isso continuo afirmando que a Bíblia não tem esta culpa. O preconceito "contra a moça que engravidou antes de casar, o divorciado, o gay, o pobre(aquelas igrejas que pregam prosperidade), o doente(igrejas que pregam que crente de verdade não adoece)..." como você mesma disse, é outra prova de que o ser humano é ignorante, não a Bíblia um guia para fazer o mal.

    Sobre a teologia feminista, continuo não concordando com seus argumentos, mas graças a Deus, podemos discordar sem se desgostar. Só acho que segregar as coisas numa teologia de uma minoria não resolve, como penso que isto também não resolve em problemas/questões de ordem civil. Se há problemas, e sabemos que há em muitas igrejas, claro que isto deve ser conversado, discutido, resolvido, mas sair segredando não é o caminho a meu ver. Pois assim abrimos margem para qualquer grupo criar a sua própria "teologia" baseada na Bíblia, até mesmo como as "seitas malucas" que você citou no seu comentário, e com isso vemos a deturpação do cristianismo e da mensagem de Cristo. Porque se é assim, o negro se sente excluído e resolve criar a teologia dele. Daí o homossexual também irá querer trilhar este caminho. Daí os poloneses chamados de polacos irão querer justificativas para eles naBíblia também, e isto vira uma zona. A mensagem de Cristo é simples e clara: somos todos um Nele e ponto. Se precisa haver uma mudança, que as pessoas lutem para que todos percebam a simplicidade e beleza da mensagem de Cristo, e não que cada um lute por sim e por "sua minoria".

    Mas claro, isto é o que eu penso e não quero impor isto a você. Apenas estou dando minha opinião sobre sua resposta.

    Abraço.

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  4. A Bíblia não é um guia para fazer mal, mas um GUIA. Pra fazer mal ou bem é responsabilidade do intérprete. A Bíblia foi usada para o mal, isso não dá pra negar, mas não tem como por a 'conta' do mal feito nela, pois ela é um Livro, não uma pessoa, é inanimado. Nesse ponto a gente falou a mesma coisa de formas diferentes (;

    No caso da teologia, criar uma teologia não é criar uma teoria a cerca da bíblia, ou uma doutrina. Teologia é uma ótica e já existem milhaaaares delas e mesmo numa linha de pensamento só, veremos várias, pois a 'teologia' não pretende criar uma doutrina, mas abordar sistematicamente alguns assuntos, assim teologias self service não são ruins(a menos que sejam feitas com más intenções), mas completam nossa necessidade de saber e atender as necessidades.
    Se você for comparar as maneiras de lidar com o conhecimento e com a práxis da 'igreja' você vai reparar que Jesus faz uma 'teologia', Paulo faz outra, Pedro outra, Tiago outra... E graças a Deus que temos todas elas! Pois elas se completam.

    O objetivo da teologia feminista é desconstruir um leitura machista e construir uma leitura igualitária da Bíblia, observar mais as mulheres na Bíblia, contar suas histórias, reler o que anteriormente foi lido mal ou ignorado.

    E esse exercício de releitura será necessário eternamente... A própria Bíblia aconselha que continuemos a reler, Jesus fez isso, Paulo fez isso...

    A mensagem de Cristo é realmente simples e prática. E seria bom se a gente não precisasse de mais nada, até porque ela já abrange tudo... O movimento de volta a simplicidade de Cristo tbm é um movimento teólogico, como a teologia feminista. E não acho que vira uma zona, se todos forem feitos com responsabilidade e consciência.

    O ideal sera que nem houvesse necessidade de lutar por direito nenhum, por minoria nenhuma e nem suscitar teologias e movimentos para mover e fazer acontecer aquilo que Jesus já deixou claro. No entanto, o pecado que nos contaminou até chegarmos na eternidade nos fará precisar sempre disso. Novas reformas protestantes, novos movimentos de 'sola', novas teologias.

    A gente tem que sempre fugir de qualquer pensamento que não nos movimente de alguma forma. Imagino que não é o seu caso, já que nos movimentamos e crescendo conversando aqui. Mas imagina se Lutero, Calvino, o fundador da sua igreja ou seu líder tivesse pensado que não deveria fazer 'mais um movimento' ou não deveria pensar a partir de um nova perspectiva ou ficado com as ideias guardadas para si?

    Obrigada pela colaboração e pela conversa (:

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