quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Opinião: Isac Machado de Moura ---- Sobre a Ordenação de Mulheres

            Mais que uma pseudo-preocupação teológica, a resistência à ordenação de mulheres ao ministério pastoral está relacionada a um temor masculino de concorrência e de divisão do poder com o sexo oposto, exatamente o mesmo processo que ocorreu e ainda ocorre em alguns outros  setores da sociedade. Não há aí, de fato, uma preocupação bíblica, mas uma recusa de reconhecê-las  capazes  de exercer tal ministério.

            Para respaldar essa atitude machista e protetora de seus espaços, o homem, que comanda a igreja,  sozinho, ao longo de sua história, recorreu e continua recorrendo a uma série de argumentos, alguns até bizarros, para desestimular a mulher de desejar tal posto e mais cruelmente para desestimular a comunidade eclesiástica de desejar ser liderada por uma pastora, passando-lhe uma sensação de insegurança e, consequente desconforto. Quanto ao texto paulino “aquele que deseja o episcopado excelente coisa deseja”, para o grupo de homens que resistem à ordenação feminina, melhor teria sido traduzido, para não deixar nenhuma dúvida, “aquele homem que deseja o episcopado excelente coisa deseja.” Às mulheres que insistem em fazer o curso Bacharel em Teologia reserva-se, já com uma certa generosidade, o papel de educadora religiosa, submetida, portanto, à autoridade de um homem, o pastor da igreja, sempre de acordo com o modelo pastorcêntrico de gestão desenvolvido pela igreja evangélica brasileira.  O que espera-se dela é que exerça tal ministério com gratidão e em submissão a esse pastor.

            Falemos um pouquinho sobre alguns dos argumentos (do passado e do presente) apresentados pelos homens para que as mulheres não sejam ordenadas ao ministério pastoral,  e atentemos para a fragilidade de cada um deles.

O sacerdócio é a imagem de Cristo, sacerdote por excelência, homem, e isto é um indicativo de que o sacerdócio deve ser uma prerrogativa exclusiva do sexo masculino.

Cristo sacrificou-se por homens e mulheres, e desprezando costumes do seu tempo, concedeu altos  privilégios às mulheres, aparecendo a elas  em primeira instância, depois da ressurreição, por exemplo.

            Será que com isso, ele não quis dar uma indicação clara de que, discordando das leis do seu tempo e na medida em que podia legitimamente violá-las, a paridade dos sexos é possível?

A mulher, em certos momentos de sua vida, segrega impureza.

      Bom, isso se refere à menstruação. Seria justo, então, privar as mulheres do sacerdócio por conta de um processo orgânico natural?


TOMÁS DE AQUINO E A ORDENAÇÃO DE MULHERES

            Quando teve que enfrentar o problema de determinar se o sacerdócio seria uma prerrogativa masculina,  Tomás de Aquino recorreu e aceitou a antropologia de sua época, segundo a qual o sexo feminino deveria submeter-se ao masculino e as mulheres não eram perfeitas em sabedoria. Paulo adotara o mesmo procedimento, levando em conta o contexto da igreja para a qual escrevera,  ao dizer que “as mulheres devem calar-se e não podem ensinar.”

            Como um homem a frente do seu tempo, Aquino parecia não se conformar com essa situação. Assim, não podendo negar que os homens são superiores e mais aptos à sabedoria que as mulheres, esforça-se para determinar como às mulheres foi dado o dom da profecia e às abadessas a direção de almas e o ensino, apresentando belíssimos argumentos.

            É o próprio Aquino que pergunta se a mulher pode batizar, e ele mesmo responde, deixando de lado as objeções impostas pela tradição: “é Cristo quem batiza.” Para reforçar sua crença, recorre ao apóstolo Paulo (Gl 3:28), onde é dito que “em Cristo não há homem ou mulher”, então “como um homem pode batizar, também o pode uma mulher.” Para não ficar mal com a opinião corrente, acrescenta: “se há homens presentes, a mulher não deve batizar.”

            Sobre a possibilidade  de a mulher receber as ordens sacerdotais, ele responde recorrendo mais uma vez ao argumento simbólico: “o sacramento é também um sinal, e para sua validade não se exige apenas a ‘coisa’, mas também ‘o signo da coisa’. Como no sexo feminino não está significada nenhuma eminência, já que a mulher vive em estado de sujeição, não se pode conferir as ordens a uma mulher.”


            Tomás de Aquino usa ainda um outro argumento para não conferir as ordens a uma mulher: “se o sacerdote fosse mulher, os fiéis (homens) se excitariam ao vê-la.” Oxente, as moças não poderiam excitar-se diante de um padre ou de pastor bonito? Ou ele estaria falando exclusivamente de ereção? Como estaria vestida ou se comportando essa mulher e onde estaria a cabeça desses fiéis?

            Ao que parece, Tomás de Aquino não soube ou não quis explicar com exatidão doutrinária por que o sacerdócio deveria ser uma prerrogativa masculina.


UM OUTRO ARGUMENTO AINDA CONTEMPORÂNEO

“O homem é a cabeça do lar. Um pastor, homem, além de líder de sua esposa no contexto da igreja, sua ovelha, é também seu líder no lar. No caso da mulher pastora, ela seria líder de seu marido também no lar, assumindo assim o papel de cabeça do lar?”

            Ai, ai, ai... vamos lá. O homem é o provedor, tudo bem, mas nem por isso, dentro de um contexto sócio-econômico em que seja mais fácil para a mulher conseguir um emprego, situação em que se torna provedora do lar, a igreja a pune nem pune o homem que não “conseguiu desempenhar seu papel”, o que seria um absurdo, evidentemente. Pois bem, essa mulher contemporânea pode tornar-se provedora do lar, pode administrar uma empresa, uma escola, pode receber salário maior que o marido, mas em hipótese alguma pode exercer o sacerdócio cristão.

            Se uma mulher é empresária e chefe do seu marido no contexto da empresa, não terá que ser sua chefe também em casa. E mais, sejamos práticos, no contexto do casamento não há alguém que manda, ambos precisam discutir, se entender, tomar decisões em conjunto.

            Nossos líderes falam em contemporaneidade, em contextualização, mas no caso específico da ordenação feminina isso não vale, nada de contextualizar, a Bíblia não registra nenhum caso, tínhamos que ter pelo menos um registro de uma mulher pastoreando uma igreja em pleno oriente médio, independente do contexto da época.
           
            Sabe aquele velho princípio do direito segundo o qual “aquilo que não é proibido é legalmente permitido?”, pois é....

            Conforme vimos até aqui,  os argumentos de resistência à ordenação feminina são mais subjetivos que teológicos. A ordenação de mulheres simplesmente não interessa aos homens. Não há orientação bíblica para fazê-lo, assim como não há proibição. Se houvesse boa vontade da parte dos homens, levaria-se em conta, evidentemente, a contextualização, mas como não é o caso, “a Bíblia não fala a respeito, então não vamos fazer.”

            Esse “não falar da Bíblia”, no entanto, é usado para benefício de alguns ministros como não sendo proibido. Vamos a um exemplo: biblicamente, pastores devem pastorear o rebanho de Deus, a igreja, pois são chamados para isso. Os próprios pastores repetem isso exaustivamente em seus sermões, e é legítimo, tudo bem. Quando alguns deles, porém, resolvem ABANDONAR o ministério para o qual foram chamados a fim de entrar na vida política não perdem o  título de pastor, nem mesmo são orientados a não utilizá-lo. Quais são mesmo os argumentos bíblico-teológicos que respaldam essa troca? Ah tá, “o que não é proibido é legalmente permitido”... pois é. Tem um agravante nesse caso, um mandamento bíblico segundo o qual “deve-se amar ao próximo como a si mesmo.”

            Ta legal, tudo bem: a ordenação de pastores ou pastoras fica a cargo da igreja local. Aliás, o que não fica a cargo da igreja local? Tudo bem, não entremos nesse mérito, nosso foco é a ordenação de mulheres.  A igreja local, enfim, tem autonomia para ordenar ou não. Reflitamos, pois, sobre a questão da igualdade: um concílio para examinar uma mulher ao pastorado tem o mesmo nível de um que vai examinar um homem? Não há pegadinhas especiais? A candidata não se sentiria diante de inquisidores? Ah, tá, depende do ambiente criado pela igreja local.

            Finalizando, permita-me, leitor, dizer o que deveria ter sido dito no início desse artigo: meu objetivo é promover uma reflexão sobre o tema. Acredito (na) e pratico (a) pluralidade de ideias. Assim sendo, é claro que não espero que todos concordem comigo. O que espero é que apresentem argumentos razoáveis para defender suas concepções e que o faça de uma forma que todos nós, simples mortais, consigamos entender.


6 comentários:

  1. Muita gente acha q modernizar a igreja ou contextualizar seja: colocar bateria no lugar do órgão; parar de cantar hinos clássicos para cantar as mú$ica$ go$pel; trocar Bíblia tradução AA pela TLH/NTLH; e alterar o vocabulário e a administração da igreja conforme a linguagem e os métodos corporativistas. Isso tudo é uma palhaçada, literalmente. A igreja ficou "chata" por isso precisa de meios "divertidos" para atrair jovens. A igreja se tornou uma central de entretenimento. Sepulcros caiados, nas palavras de Jesus. Muito bonito por fora, mas podre por dentro pq a essência é a mesma. É a praga do fundamentalismo, do dogmatismo, da intolerância, e da hipocrisia, todos travestidos de piedade e devoção.

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  2. É isso aí, tem que ordenar mulheres sim. O pessoal das religiões afro-brasileiras está muito a nossa frente com relação a isso. Nesses grupos, há muito tempo mulheres exercem liderança.
    E tem mais: a Stephanie é uma pessoinha muito fofa por quem quero declarar publicamente meu carinho, meu amor, minha admiração quase que paterna. E o que isso tem a ver com o artigo? Ah, sim, pois é, é isso mesmo.
    Então, como dizia, precisamos sim repensar o espaço da mulher na liderança da igreja. Existe um projeto na Convenção Fluminense para ser votado no próximo ano quanto a esse tema. E se mandarmos um monte de e-mails pra lá pedindo um carinho especial com o caso? Sei lá. A visão da liderança masculina da igreja é muito retrógrada quanto a isso, ou pior ainda, de absoluta proteção do espaço do homem.

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  3. Gente, eu queria recomendar um livro cujo título não estou lembrando agora. Usei alguns elementos dele para minha abordagem, mas não lembro agora o título. Trata-se de uma coletânea de cartas trocadas entre Umberto Eco e um cardeal católico. Vale muito a pena ler. Mas qual o título? Pois é, assim que lembrar faço um novo comentário.

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  4. Prezado Isac, o livro q vc queria lembrar o nome é "Em que crêem os que não crêem?" (http://is.gd/ITdMLt).

    Vale comentar que as Igrejas Batistas são livres, independentes e congregacionais. Isso significa que não interessa o que a CBB, OPB ou a Convenção Fluminense pense. Qualquer Igreja Batista tem autonomia para ordenar mulheres se quiser. O problema é que elas não sabem disso. A ordenação não está ligada à nenhum órgão batista e o concílio que a precede não é normativo. Basta a Assembleia Geral da Igreja decidir ordenar e ponto final. A congregação é soberana, está acima dos pastores e doutores da lei moralistas e fundamentalistas que temos em nosso meio. Para ordenar mulheres só precisa de uma coisinha só: coragem.

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  5. Um dia você aprende que com a mesma severidade com que julga,
    você será em algum momento condenado.

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