sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Qual é a relação ideal entre ciência e religião?

Para introduzir o assunto é importante destacar alguns pontos. Primeiramente, que na relação entre ciência e religião não seja simplesmente uma competição vazia e essencialmente academicista, distanciada nas realidades da fé e da vivência do ser humano, mas que "o mais importante (...) é que ele esteja orientado para o bem da sociedade". Em segunda avaliação, antes de desenvolver o tópico, há outro ponto citado pelo Dr. em Teologia Mário Antônio Sanches que é imprescindível para uma relação saudável entre os dois pontos... Não é possível e em aceitável "uma ciência que rejeita a religião, ou uma religião que rejeita a ciência", pois dessa forma o objetivo de ambas as áreas deturpa-se e ao invés de se ocuparem em melhorar a vida do ser humano e desenvolver suas relações com o mundo e com a as pessoas, ocupam-se em provar que outro está errado.



Seria extremamente interessante problematizar cada uma das relações que se estabelecem, tanto pela área científica quanto pela religiosa, no entanto como o debate não parte da área científica, mas sim teológica e não cabe neste espaço questionar todos os pontos, o texto se aterá apenas ao tipo de relação ideal entre os pontos, que é o diálogo e ao tipo mais nocivo, o conflito.
O fundamentalismo bíblico radical é o principal responsável por um conflito permanente da ciência com a religião. Aquele grupo religioso que ignora completamente a ciência e vive sob a sombra de uma teologia ortodoxa conservadora e literalista, vive numa constante ilusão delirante que o afasta da realidade e do diálogo com o mundo que pretende conquistar e mudar. Se prender a uma vivência de fé medieval e estática é basicamente mergulhar-se em ignorância deliberadamente, como um avestruz que enfia sua cabeça na terra, e ignora sua missão transformadora no mundo. 

Uma religião que não dialoga com a ciência acaba por produzir determinadas barbaridades como, por exemplo, considerar a homossexualidade uma doença, não conseguir lidar com a laicidade do ensino, perpetuar na instituição o machismo e a misoginia como algo natural, ser incapaz de ao menos dialogar com a medicina na questão de células tronco, e debater o aborto. O papel social da religião é proporcionar a humanidade como grupo a utopia da transcendência, da convivência empática com o outro e progressivamente melhor ao longo das gerações. 
"Aquilo que definimos como o sentido de nossa vida não pode ignorar o que se descobre nas diversas áreas do
conhecimento humano, sob pena de se ver envolvido por uma crise não apenas de conhecimento, mas de sentido, uma crise existencial."

Que tipo de evangelho transformador e inaugurador do Reino de Deus o cristianismo pode pregar e concretizar com uma postura retrógrada e fechada ao diálogo?! A religião não necessariamente precisa acatar todas as posições científicas acerca dos assuntos relacionados com a o dia a dia das pessoas, ou se tornaria uma relação de submissão, mas pelo menos precisa estar preparada e proporcionar um espaço de diálogo real onde em cada um dos pontos aja concessões ou pelo menos sejam ouvidos e estudados ao invés de completamente demonizados.

"Entendemos, portanto, que as religiões que dialogarem com a ciência conseguirão despertar em seus adeptos um justo e equilibrado respeito entre essas duas áreas do conhecimento humano, e as religiões que se fecharem para o avanço científico conseguirão apenas radicalizar-se num fanatismo doentio e reproduzir uma visão insustentável: a de que a ciência nos afasta de Deus."

Com o caminho ideal da relação sendo o diálogo há o reconhecimento que as partes são igualmente importantes e têm seu papel na sociedade, além de respostas para os fenômenos que são de seus interesses. 
Para este diálogo ser integral, precisa promover o "reconhecimento de que cada disciplina tem algo a dizer para a outra, valorizando as contribuições da ciência para o desenvolvimento e purificação da religião e também reconhecendo que a religião tem defendido posições básicas que favorecem um desenvolvimento científico promotor de vida."

Para concluir, este tipo de elo entre as partes só conseguiria se dar a partir do reconhecimento, de ambos os lados, da necessidade de se aceitar a diversidade como parte do que é ser humano e do seu caminho como sociedade. E fica o questionamento, individualmente e como grupo, se o cristianismo pode fazer este caminho e abandonar outras posições estéreis em desenvolver nossa fé para um destino onde o Reino de Deus na terra não seja apenas uma utopia. 

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*Todas as citações são saídas do texto '
O diálogo entre teologia e ciências naturais', do Dr em Teologia Mário Antônio Sanches

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